Estamos diante de uma necessidade: abandonar gradativamente os combustíveis fósseis, que causam e pioram a crise climática já em curso. E se queremos garantir nossa sobrevivência no planeta, os caminhões devem fazer parte dessa equação, afinal, eles são extremamente poluentes e dependentes de petróleo.
Dessa forma, a eletrificação pode ser uma alternativa para os transportes de cargas pesadas. Não como uma mágica, mas como uma possibilidade de transicionar um setor tão importante para as pessoas e para a economia, de forma justa, crítica e, claro, popular.
Eletrificar significa substituir os motores movidos a combustão (como o de caminhões, que utilizam
principalmente o diesel) por motores elétricos, que são renováveis e não emitem gases de efeito estufa.
A eletrificação tem crescido no mundo todo. Hoje, a venda de veículos elétricos, incluindo os caminhões, está concentrada na China.
Nacionalmente, o cenário avança, mas ainda é incipiente: em 2024, foram vendidos 500 caminhões elétricos por aqui. Contudo, é necessário comprometimento dos setores públicos e privados para que a mudança continue e cresça de forma coordenada e justa.
Um dos problemas é que a indústria de caminhões é dominada por apenas quatro empresas. A maioria se mostra resistente a investir na transição energética, tornando a indústria dependente de combustíveis fósseis, contando apenas com esforços voluntários e intervenções políticas fragmentadas. Até existem boas intenções no papel, mas na prática, o dinheiro realmente investido ainda é pouco. Por isso, nossa pressão enquanto sociedade civil é tão necessária!
Os dados mostram que, dentre as várias tecnologias que existem hoje, a eletrificação se destaca. Os caminhões elétricos são o caminho mais eficiente e escalável para descarbonizar o transporte de cargas. Eles são mais eficientes do que os movidos a diesel e emitem menos poluentes, como mostram essas comparações:
Talvez você esteja se perguntando como é possível eletrificar transportes de cargas em um país continental como o Brasil, onde estão os postos de recargas de baterias ou ainda quais impactos essa indústria trás para
a população, povos tradicionais e ecossistemas naturais. E você tem razão!
Os desafios da eletrificação são muitos, e não devem ser ignorados, mas sim enfrentados com ética, senso crítico e participação popular para que seu modelo não reproduza ainda mais desigualdades socioambientais.
Eletrificar as frotas brasileiras envolve olhar para a grande malha rodoviária nacional, que exige uma mudança de infraestrutura, a criação de locais para a recarga das baterias e diversificação dos modais de transporte. Também não temos políticas e incentivos públicos suficientes, e o comprometimento das grandes empresas é muito pequeno. Isso dificulta o avanço das instalações necessárias, que necessitam de recursos altos para começarem a operar. Devemos considerar, ainda, que enfrentamos um mercado energético dominado pelo lobby dos combustíveis fósseis.
Além disso, a exploração de minerais estratégicos para a eletrificação pode gerar mais pressão socioambiental em comunidades quilombolas e indígenas. Em junho de 2024, mais de 5 mil pedidos de mineração na Amazônia brasileira buscavam oportunidades de explorar as “terras raras”.
Contudo, as vantagens são várias. Ao eletrificar as frotas de caminhões, a poluição do ar diminui, o aquecimento global é reduzido e mitiga os impactos das mudanças climáticas. Com isso, estaremos reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis ao mesmo tempo em que fortalecemos a segurança energética nacional. Também utilizam-se baterias que possuem ciclos de vida de até 15 anos, o que reduz os custos de manutenção e mecânica dos caminhões convencionais movidos a combustão.
Mais do que um desafio, eletrificar
é uma oportunidade para o país enfrentar as mudanças do clima e
se posicionar como um dos agentes globais da descarbonização no setor de transportes. Empregos justos poderão (e deverão!) ser criados,
a soberania energética poderá se fortalecer e custos públicos bilionários com a saúde poderão ser evitados.
A eletrificação, os biocombustíveis e outras alternativas energéticas para os caminhões já estão em debate, mas essa transformação não pode ser apenas tecnológica ou uma mera questão econômica.
Ela levanta perguntas importantes:
Apesar dos desafios, o Brasil busca a criação de políticas públicas para acelerar a eletrificação de frotas. Um exemplo importante é o Programa MOVER, liderado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que prevê R$ 19 bilhões em incentivos até 2028, incluindo créditos fiscais para pesquisa e desenvolvimento e descarbonização. Contudo, a iniciativa ainda tem pouca transparência e muita influência de setores interessados no biodiesel, como o agronegócio.
A realidade é que a concretização da transição energética no setor de cargas pesadas exige ações coordenadas entre governos, indústrias e sociedade civil